Não é um erro? Como assim? Estamos mesmo a falar a sério?
Raios... É mesmo verdade. Como o tempo escapa.
Não só à nossa volta, mas também por entre os dedos, qual ampulheta furada.
E o curioso que é ver como mudamos com ele, ainda que nos custe reconhecer a evidência.
E o curioso que é ver como mudamos com ele, ainda que nos custe reconhecer a evidência.
O certo é que mudamos bastante.
Saímos da porta de casa e pomo-nos à prova.
Saímos da porta de casa e pomo-nos à prova.
Recolhemos a âncora, içamos as velas e largamos quando o vento está favorável, unicamente munidos de uma mochila e uma bússola artesanal que construímos com dois pratos de cobre e um íman caseiro. Lá fora, o horizonte é claro como um espelho, os primeiros salpicos salgados sabem a mel e a margem é cada vez menos nítida, à medida que nos infiltramos na neblina dourada.
E depois vem a noite. Curiosamente, e sem que nada o faça prever, o vento começa a soprar ao contrário, e depois de bombordo, depois de estibordo. A proa e a popa balançam ruidosamente, lançando-nos ao chão, à medida que a espuma das ondas nos ensopa de frio. Resistimos e forçamos o leme, que insiste em desviar-se do rumo. Como se não fosse suficiente, os ponteiros da bússola começam a girar incessantemente, denunciando a sua precária concepção. Por um momento, sentimo-nos perdidos. Somos impelidos a voltar-nos para todos os lados, a fugir ou a saltar borda fora, ao mesmo tempo que prevalece a vontade de nos voltarmos para aquele ponto de onde viemos, e cuja luz reluzente reconhecemos a milhas de distância.
Mas, por fim, a tempestade amaina. As nuvens dispersam, o sol volta e a bússola sintoniza-se com os astros. Sabemos de onde vimos, mas não sabemos para onde vamos, nem tão pouco que ventos e correntes teremos de suportar.
Homem do Leme - Xutos & Pontapés
Mudamos na viagem. Sonhamos, a certa altura, com dois pólos opostos, sabendo que aqui, no meio do mar, a distância será igualmente epopeica em qualquer dos sentidos. Aprendemos sobre nós e sobre o universo do qual nos afastamos, que aprendemos a interpretar com distância. Duvidamos muito. Encolhemo-nos e reconhecemo-nos numa nova insignificância, inundados de dúvidas e apreensão. Desenhamos nas paredes e mantemos referências, tentando sempre gerir, da melhor forma que sabemos, as ansiedades reinantes, os obstáculos consecutivos. Construímos mecanismos de defesa que, em última análise, nos consomem por dentro e nos repelem da novidade. Seja boa ou má.
Somos muito mais do que isto.
Somos um ano novo, somos aqueles que sonham e que se atiram de cabeça, somos aqueles que sentem a dobrar.
Feliz 2019!
Uma vez pensei que tinha resolvido todos os meus problemas.
Era mentira, e ainda bem.